CNJ • PROVIMENTO 243 (Artigo)
Provimento 243 do CNJ: novos prazos, novas classes e o que realmente muda para os cartórios
Mais prazo não significa menor exigência: o CNJ recalibra a implementação do Provimento 213 e reforça proporcionalidade, governança e maturidade tecnológica.
Publicado em julho de 2026, o Provimento nº 243 do Conselho Nacional de Justiça altera pontos relevantes do Provimento nº 213/2026, responsável por estabelecer novos padrões mínimos de tecnologia da informação e comunicação para os serviços notariais e de registro.
Resumo do Provimento 243
O Provimento 243 redefine o enquadramento econômico das serventias, cria subclasses, estabelece novos prazos de implementação e reforça critérios relacionados à proporcionalidade, continuidade operacional, tecnologias suportadas, fornecedores e governança tecnológica.
A mudança de prazos e de enquadramento não elimina a necessidade de compreender o ambiente atual e estruturar um plano de adequação verificável.
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1. Novos prazos: o cronograma foi recalibrado
Uma das alterações de maior impacto promovidas pelo Provimento 243 está no cronograma de implementação inicial obrigatória dos requisitos do Provimento 213.
As Etapas 1 e 2 do Anexo IV, relacionadas à governança, conformidade legal, infraestrutura e continuidade operacional, passam a observar novos prazos contados da entrada em vigor do Provimento 243.
A mudança oferece uma janela maior para organização das serventias. Entretanto, existe uma diferença importante entre possuir mais prazo e simplesmente adiar a adequação.
Projetos envolvendo infraestrutura, continuidade, segurança, documentação e governança dependem de planejamento, implantação, validação e geração de evidências.
2. O enquadramento econômico das serventias mudou
O Provimento 243 modifica significativamente a forma de classificação das serventias.
O enquadramento passa a considerar a receita bruta semestral da serventia, apurada segundo os critérios definidos pelo próprio normativo.
De forma simplificada, valores arrecadados por conta de terceiros e repasses legais obrigatórios não integram essa base. Por outro lado, despesas de custeio, pessoal, investimentos e tributos do delegatário não são deduzidos para essa finalidade.
O novo modelo cria ainda subclasses de A a J, aumentando a granularidade utilizada para avaliação da proporcionalidade regulatória.
Isso é importante porque serventias enquadradas dentro da mesma classe podem possuir realidades econômicas significativamente diferentes.
3. Proporcionalidade ganha uma estrutura mais clara
Uma das evoluções relevantes do Provimento 243 é a formalização de mecanismos para situações nas quais determinada exigência possa se mostrar tecnicamente inviável ou economicamente desproporcional.
O novo art. 20-A admite, excepcionalmente, que a Corregedoria competente autorize determinado nível técnico diverso.
Isso, entretanto, não representa dispensa automática.
Além disso, requisitos essenciais relacionados à proteção do acervo e dos dados permanecem fora dessa flexibilização.
4. Mais prazo pode existir — mas não automaticamente
O Provimento 243 também modifica o mecanismo de prorrogação dos prazos.
As Corregedorias dos Tribunais de Justiça poderão, excepcionalmente e mediante decisão fundamentada, conceder prorrogação quando demonstrada inviabilidade temporária de adequação de natureza técnica ou financeira.
O somatório dos períodos concedidos não poderá ultrapassar 180 dias.
Entretanto, a prorrogação está associada à demonstração da situação, à existência de planejamento para adequação e à adoção de medidas compensatórias de redução de risco.
A concessão também implica regime especial de acompanhamento pela Corregedoria competente.
5. Tecnologia funcionando não significa tecnologia adequada
Outro ponto de impacto prático do Provimento 243 está relacionado ao ciclo de vida das tecnologias utilizadas.
O normativo estabelece restrições à utilização, para cumprimento de seus requisitos, de tecnologias cujo ciclo oficial de suporte pelo fabricante tenha sido encerrado, conceito conhecido como End of Life (EOL), observadas as regras de transição aplicáveis.
Esse ponto modifica uma percepção ainda comum em muitos ambientes:
Em um ambiente regulado, simplesmente funcionar deixa de ser critério suficiente.
Um sistema, computador ou componente tecnológico pode continuar operando normalmente e, ainda assim, encontrar-se fora do ciclo oficial de suporte do fabricante e sem atualizações de segurança.
Um exemplo facilmente compreensível ocorre com versões de sistemas operacionais: quando determinada versão deixa de possuir suporte oficial e atualizações de segurança, sua permanência no ambiente passa a exigir tratamento dentro da governança tecnológica da serventia.
O Provimento também exige evidência documental atualizada quanto à vigência do suporte técnico e das atualizações de segurança.
6. Recuperação inferior a 30 minutos: uma nova referência para ambientes críticos
O Provimento 213 já havia estabelecido parâmetros relacionados à continuidade operacional, incluindo limites para recuperação de dados e retorno da operação conforme o enquadramento aplicável.
O Provimento 243 acrescenta uma nova referência.
Para ambientes de maior criticidade, passa a existir como meta técnica de excelência a capacidade de recuperação de dados com defasagem inferior a 30 minutos, quando tecnicamente viável e economicamente proporcional.
Essa alteração precisa ser interpretada corretamente.
O dispositivo não significa simplesmente que todas as serventias passaram a ser obrigadas a realizar “backup a cada 30 minutos”.
Também não elimina, por si só, os parâmetros mínimos de continuidade anteriormente estabelecidos.
O que surge é uma referência adicional para ambientes cuja criticidade demande maior capacidade de recuperação.
E criticidade não deve ser confundida automaticamente com classe econômica.
Uma serventia de menor porte também pode possuir informações, sistemas ou processos cuja perda ou indisponibilidade produza impacto relevante.
Trata-se de uma evolução importante da maturidade regulatória aplicada à tecnologia.
7. Terceirizar tecnologia não significa terceirizar responsabilidade
O Provimento 243 torna mais explícita uma questão relevante para serventias que utilizam fornecedores externos.
A adoção de solução própria, contratada, compartilhada ou coletiva não afasta a responsabilidade do delegatário pelo cumprimento das obrigações legais e regulamentares.
Da mesma forma, a centralização de determinados controles técnicos não elimina o dever de governança, supervisão e fiscalização da própria serventia.
8. O Provimento 243 não enfraquece o 213
O conjunto das alterações demonstra uma lógica regulatória maior.
O CNJ reconhece diferenças econômicas entre as serventias e introduz instrumentos mais sofisticados de proporcionalidade.
Ao mesmo tempo, preserva requisitos essenciais e fortalece mecanismos relacionados à governança, evidência, responsabilidade e acompanhamento.
A adequação não pode ser analisada apenas por meio de uma relação de equipamentos ou de documentos isolados.
Essas dimensões precisam funcionar como partes de uma mesma estrutura.
9. O que a serventia deveria fazer agora?
O primeiro movimento não deveria ser simplesmente comprar equipamentos ou alterar sistemas.
Também não deveria ser esperar a aproximação dos novos prazos.
A mudança normativa exige inicialmente compreender como a serventia está enquadrada, qual é sua situação atual e quais requisitos possuem impacto sobre seu ambiente.
A partir dessa compreensão, torna-se possível estruturar um processo de adequação proporcional, documentado e verificável.
Medição precede decisão.
Estrutura precede escala.
O prazo adicional concedido pelo Provimento 243 pode ser extremamente relevante quando utilizado para construir essa estrutura.
Quando utilizado apenas para postergar decisões, o mesmo prazo pode simplesmente deslocar o problema para mais adiante.
10. Conclusão
O Provimento 243 representa uma evolução importante na implementação dos padrões tecnológicos estabelecidos pelo Provimento 213.
Ele amplia prazos, redefine critérios econômicos, cria subclasses e estabelece mecanismos mais sofisticados de proporcionalidade.
Ao mesmo tempo, reforça uma direção regulatória clara: tecnologias suportadas, continuidade mensurável, fornecedores supervisionados, evidências verificáveis e responsabilidades claramente atribuídas.
Estrutura antes de execução
A SOLUPRY estrutura governança tecnológica para ambientes regulados, conectando infraestrutura, continuidade, segurança, conformidade e evidências em uma arquitetura integrada.
